Recentemente, veio a público um episódio envolvendo Virgínia Fonseca, influenciadora digital, e Vinícius Jr., jogador de futebol, que gerou ampla repercussão e indignação. O caso refere-se à divulgação de um vídeo em que a influenciadora aparece beijando um macaco durante uma viagem, o que viralizou nas redes sociais e passou a ser amplamente debatido. Considero um absurdo o que aconteceu.

Quem conhece a história do racismo sabe que a associação entre pessoas negras e macacos é uma das formas mais antigas e cruéis de desumanização do povo negro. Não se trata de um símbolo neutro ou inocente, mas de uma imagem historicamente utilizada para inferiorizar, humilhar e negar a humanidade das pessoas negras.

Por isso, considero importante que pessoas negras se relacionem com parceiros e parceiras que compreendam a história do racismo, respeitem sua identidade e sejam capazes de reconhecer a gravidade de atitudes e símbolos historicamente utilizados para desumanizar o povo negro. Da mesma forma, considero fundamental valorizar relações construídas sobre respeito, consciência histórica, empatia e compromisso genuíno com a igualdade racial.

Na minha opinião, a forma escolhida para atingi-lo revela falta de caráter, de consciência, de conhecimento histórico, antropológico e cultural. Considero que houve a intenção de feri-lo por meio de um símbolo historicamente utilizado para ofender, humilhar e desumanizar pessoas negras.

Para escravizar um povo, foi necessário, antes, inferiorizá-lo. Foi preciso construir mentiras sobre sua humanidade, sua inteligência e sua cultura. No entanto, a história mostra justamente o contrário: a humanidade tem suas origens na África, e as diferenças de cor de pele surgiram ao longo do tempo como adaptações a diferentes ambientes.

O povo negro possui uma história rica, profunda e fundamental para a construção da civilização humana. Grande parte da população brasileira possui ancestralidade africana, e a influência negra está presente em nossa língua, nossa música, nossa culinária e em nossa própria formação como nação.

 

O racismo também é alimentado pela falta de conhecimento histórico e cultural. Muitas pessoas aprendem preconceitos antes de aprender história. Desde cedo, ideias racistas são transmitidas e naturalizadas, perpetuando privilégios e desigualdades.

Houve ampla repercussão negativa devido ao histórico de ataques racistas sofridos por Vinícius Jr. Posteriormente, Virgínia negou que tivesse qualquer motivação racista e apresentou um pedido de desculpas.

Ainda assim, na minha opinião, um pedido de desculpas não apaga nem invalida o ato praticado. As palavras ditas depois não eliminam o impacto daquilo que foi feito. Quando se trata de símbolos historicamente utilizados para humilhar e desumanizar pessoas negras, é preciso compreender a gravidade de seus significados e consequências.

E, na minha opinião, uma atitude como essa demonstra profunda crueldade diante de uma ferida histórica que continua atingindo milhões de pessoas negras. Considero especialmente grave que isso tenha ocorrido com alguém que já foi tantas vezes alvo de ataques racistas.

O combate ao racismo exige mais do que pedidos de desculpas após a repercussão de um episódio. Exige conhecimento, consciência histórica, empatia e responsabilidade. Enquanto a sociedade não compreender a profundidade dessas feridas e a carga simbólica de determinados atos, continuaremos assistindo à repetição de comportamentos que reforçam preconceitos e perpetuam a dor de milhões de pessoas.

Zenilda Campos