O cinema brasileiro perdeu, nesta quarta-feira, 22 de julho de 2026, um de seus principais realizadores. Luiz Carlos Barreto morreu aos 98 anos, no Rio de Janeiro, em decorrência de complicações provocadas por uma pneumonia.
Conhecido carinhosamente como “Barretão”, ele estava internado desde o início da semana para o tratamento de uma infecção pulmonar. Sua morte encerra uma trajetória de mais de seis décadas de trabalho e compromisso com a afirmação da cultura por meio do cinema nacional de resistência.
Nascido em Sobral, no Ceará, em 20 de maio de 1928, Barreto transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1947. Antes de ingressar no cinema, atuou como jornalista e fotógrafo da revista O Cruzeiro, experiência que contribuiu para formar seu olhar atento à realidade social, política e cultural do país.
No início da década de 1960, começou a trabalhar no audiovisual, participando como corroteirista e coprodutor de Assalto ao Trem Pagador (1962), dirigido por Roberto Farias. O filme, inspirado em um crime ocorrido no Rio de Janeiro, tornou-se um marco do cinema nacional ao combinar narrativa popular, tensão dramática e denúncia das desigualdades sociais.
A partir desse trabalho, Luiz Carlos Barreto consolidou-se como produtor, diretor de fotografia, roteirista e articulador cultural. Ao lado de sua esposa, Lucy Barreto, fundou a produtora L.C. Barreto, responsável por dezenas de filmes e pela formação de diferentes gerações de cineastas, técnicos e atores.
Sua família também se tornou uma referência na cinematografia brasileira: seus filhos Bruno Barreto e Fábio Barreto construíram importantes carreiras como diretores, enquanto Paula Barreto passou a atuar na produção e na preservação do legado da empresa.
Barreto teve participação decisiva no CINEMA NOVO, movimento que procurou mostrar um Brasil distante das imagens idealizadas difundidas pelo cinema comercial. Como diretor de fotografia, assinou o trabalho visual de Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, adaptação da obra de Graciliano Ramos.
A fotografia árida e contrastada do filme traduz visualmente a pobreza, a fome, a exploração e a violência enfrentadas por uma família de retirantes no sertão nordestino. Também trabalhou na fotografia de Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, alegoria política sobre o autoritarismo, as disputas pelo poder e as contradições das elites latino-americanas.
Sua atuação, contudo, não se restringiu ao Cinema Novo. Luiz Carlos Barreto atravessou diferentes períodos da história brasileira e participou de mais de uma centena de produções. Entre os títulos mais reconhecidos ligados à sua trajetória estão A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965), O Padre e a Moça (1966), Como Era Gostoso o Meu Francês (1971), Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), Bye Bye Brasil (1979), Memórias do Cárcere (1984), O Quatrilho (1995), O Que É Isso, Companheiro? (1997) e Casa de Areia (2005).
Esses filmes revelam a amplitude de seu projeto cinematográfico. Dona Flor e Seus Dois Maridos, dirigido por Bruno Barreto e baseado no romance de Jorge Amado, conciliou qualidade artística, cultura popular e extraordinário sucesso de público, permanecendo durante décadas entre as maiores bilheterias do cinema brasileiro.
Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, retratou um país em transformação, dividido entre tradições populares e uma modernização marcada pela televisão, pelas estradas e pelas migrações internas. Já Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos, recuperou a experiência de Graciliano Ramos durante o Estado Novo, convertendo a memória individual em denúncia do autoritarismo.
Na década de 1990, Barreto desempenhou papel relevante na chamada retomada do cinema nacional, após a grave crise provocada pelo desmonte das políticas públicas para o setor. Produzido pela L.C. Barreto e dirigido por Fábio Barreto, O Quatrilho representou o Brasil na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. Pouco depois, O Que É Isso, Companheiro?, dirigido por Bruno Barreto, também recebeu indicação ao prêmio. As duas obras ajudaram a restabelecer a presença internacional do cinema brasileiro e confirmaram a capacidade de Barreto de articular criação artística, produção e circulação comercial.
A importância de Luiz Carlos Barreto ultrapassa, portanto, a realização de filmes de sucesso. Sua obra constitui uma extensa interpretação audiovisual do Brasil. Por meio dela, emergem o sertão e as grandes cidades, as culturas populares e as contradições da modernização, o racismo, a desigualdade social, a repressão política, os conflitos de classe, a imigração e a luta pela liberdade. Seus filmes não tratam a história como simples cenário: transformam-na em matéria de reflexão sobre a formação da sociedade brasileira.
Produtor incansável e defensor das políticas públicas para a cultura, Barreto compreendia o cinema como arte, indústria, memória e instrumento de intervenção política. Foi também um dos criadores do Canal Brasil, ampliando os espaços de exibição e valorização da produção nacional.
Com a morte de Luiz Carlos Barreto, o Brasil perde um dos grandes construtores de sua cinematografia. Permanece, entretanto, uma filmografia indispensável para conhecer criticamente o país. Revisitar os filmes aos quais dedicou sua vida significa reencontrar não apenas a história do cinema brasileiro, mas também as esperanças, os conflitos e as profundas contradições que constituem nossa história e nossa cultura.
Luiz Carlos Barreto, para sempre PRESENTE!
